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Em Vitória, um córrego sepultado sob o asfalto

Quem passa pela Avenida Paulino Müller, em Vitória, caminha despercebidamente sobre um silencioso córrego, contido em uma galeria de drenagem de água da chuva. O Córrego Jucutuquara, que até já foi utilizado para abastecer a cidade, hoje é história. Há somente um vislumbre do que já foi um dia, visível no bairro Fradinhos, em um pequeno trecho que escapou do concreto.

Avenida Paulino Müller, em Jucutuquara.  O córrego passa em galeria subterrânea
Avenida Paulino Müller, em Jucutuquara. O córrego passa em galeria subterrânea
Foto: Fernando Madeira

Cobrir os rios urbanos quando eles se tornam “incômodos” é a alternativa muitas vezes incentivada pela própria população para “resolver” o problema da poluição, como o despejo de esgoto, que, no entanto, não deixa de ocorrer. “Querem esconder embaixo do tapete”, resume a arquiteta Maria Cecília Barbieri Gorski, autora do livro “Rios e cidades: ruptura e reconciliação”.

A ocultação das águas do curso baixo do Córrego Jucutuquara ocorreu na década de 1960. “A vantagem pretendida era evitar um certo contato, ou muito mais por uma questão de embelezamento da cidade. As pessoas entendiam essa água como uma água suja. Até mesmo porque ela estava muito poluída por esgoto doméstico. Houve uma pressão da população para que se realizasse esse tipo de obra, eliminar da superfície da cidade esses cursos d’água poluídos, para mostrar um caráter civilizatório ou desenvolvimentista”, afirma Rafael Passos, mestre em arquitetura pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). “O ciclo de degradação das águas urbanas fez com que os rios e corpos d’água passassem a ser negados pelas cidades brasileiras.”

Arquiteto Rafael Passos
Arquiteto Rafael Passos
Foto: Fernando Madeira

E o ciclo de degradação ainda não terminou. Não é possível ver o córrego na maior parte de sua extensão. Ele nasce no Parque da Fonte Grande e deságua na Baía de Vitória, próximo ao antigo terminal aquaviário. Mas não é difícil imaginar que continue contaminado, além de estar privado de seu curso original, da vegetação e de suas margens, atropeladas pelo asfalto.

A bacia de contribuição – área em que toda chuva é drenada para um rio principal – do Córrego Jucutuquara é composta, além dos três bairros cortados pelo curso d’água (Fradinhos, Jucutuquara e Ilha de Santa Maria), por parte dos bairros Tabuazeiro, Santa Cecília, Do Cruzamento e Romão. Na região, de acordo com a Cesan, há 2.541 imóveis. Desses, 2.128 (84%) estão ligados à rede de coleta e tratamento de esgoto. Outros 246 (10%) não estão ligados, apesar de contarem com a rede disponível e outros 167 (6%) não têm como se conectar, uma vez que a rede ainda precisa ser construída pela companhia.

O Córrego Jucutuquara, ainda que tímido e escondido, é o segundo maior curso d’água da Ilha de Vitória, atrás apenas do de Maruípe, também oculto.

Valdomir Colombo, encarregado de manutenção
Valdomir Colombo, encarregado de manutenção
Foto: Fernando Madeira

LIVRE

O encarregado de manutenção Valdomir Colombo, 51 anos, trabalha na Paulino Müller e nem faz ideia dessa história. “Pensei que fosse um valão, por causa da galeria, achei que fosse para passar esgoto”, diz. Perguntado se gostaria de ver o córrego correndo livremente, sem a cobertura de concreto, refletiu: “Se fosse um córrego mesmo... Mas já deve estar poluído”.

PESCA E BRINCADEIRAS

No pequeno trecho visível, atrás do Destacamento da Polícia Militar (DPM) de Fradinhos, em Vitória, o Córrego Jucutuquara vence as pedras e segue seu curso, mas com um volume de água bem menor do que o registrado na memória do aposentado Marcos Monjardim, de 75 anos, presidente da associação de moradores do bairro.

“Quando eu era criança a gente pescava muito aqui, acará, traíra... Você escolhia o peixe que queria pegar. A água era limpinha. Você podia beber a água, não tinha esgoto. A gente era feliz e não sabia”, lembra Monjardim. Mas tudo mudou com a urbanização de Fradinhos.

Marcos Monjardim, presidente da Associação de Moradores de Fradinhos, recorda os tempos de águas fartas
Marcos Monjardim, presidente da Associação de Moradores de Fradinhos, recorda os tempos de águas fartas
Foto: Fernando Madeira

“A Cohab fez um conjunto de casas nesta região e as pessoas começaram a jogar esgoto no córrego. Teve muito desmatamento também, o rio foi secando e os peixes sumiram. Foram feitas ruas, a galeria, e cobriram o rio, que antes era aberto até a pracinha de Jucutuquara. O bairro foi crescendo e os moradores pediram para fechar (o córrego)”, conta o aposentado.